Várias guinadas e naufrágio à vista

Sucessão de fatos negativos força o presidente a mudar de rumo a cada acontecimento (Foto: Sérgio Lima/AFP)

Enrolado num novelo sem fim de denúncias e complicações políticas, o presidente Michel Temer (MDB) continua navegando no escuro em busca de um porto que nunca chega. Pelo contrário, a cada dia que passa, o emedebista se perde mais no maremoto de denúncias, complicações políticas e perda de força junto a aliados que, num movimento de sobrevivência, procuram se distanciar do chefe para evitar a herança do desgaste político.

O anúncio, feito neste domingo (06), da liberação de R$ 4 bilhões para Estados e municípios constava na estratégia do presidente para minimizar o isolamento em que se meteu por esforço próprio. Mas a Confederação Nacional dos Municípios se adiantou e botou água no chope, ao explicar que o dinheiro não era novidade, e sim uma arrecadação extra do governo para honrar uma dotação orçamentária já prevista anteriormente. O alarde, porém, já havia sido feito pelo Palácio do Planalto, numa tentativa de impulsionar a imagem de Temer como benfeitor dos entes federativos.

Nesse jogo de erros e acertos de rumo – mais erros que acertos – o presidente tem dado várias guinadas inesperadas no barco, buscando reverter os estratosféricos índices de impopularidade que colaram nele. A distribuição de verbas federais faz parte, mas não é tão significativa quanto, por exemplo, o recuo na disposição de disputar a reeleição, anunciada por aliados há cerca de dois meses. Neste final de semana, o emedebista engatou a marcha ré, numa admissão de que não conseguirá virar o jogo em seu favor.

O PSDB, outrora descartado como aliado eleitoral, voltou a ser procurado. Num encontro entre Temer e o presidenciável tucano Geraldo Alckmin, a conversa girou em torno das possibilidades de unir as forças de centro em um só palanque. Ao mesmo tempo, o presidente chamou o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles – pré-candidato do MDB ao Planalto – para cobrar mais diálogo com outras forças, em nome da unidade. E o barco foi fazendo mais água.

As guinadas de estratégia, na verdade, começaram bem antes, quando Temer, vislumbrando um horizonte sombrio de derrotas no Congresso Nacional, resolveu abrir mão das tão propaladas reformas econômicas, até então eleitas as meninas dos olhos da sua gestão. Tratou imediatamente de encontrar outro flanco, desviando as atenções para a questão da segurança pública. A intervenção federal no Rio de Janeiro foi o pivô das novas ações, que incluíram a criação de mais um oneroso ministério.

O próximo desafio do presidente, entretanto, pode se tornar incontornável, independentemente de qualquer guinada estratégica. A pouco mais de sete meses de deixar o cargo e perder a imunidade, podendo ser processado na justiça comum, Temer está prestes a enfrentar uma terceira denúncia do Ministério Público Federal por corrupção. As duas investidas anteriores foram temporariamente arquivadas por determinação da Câmara dos Deputados, que não concedeu a licença ao Supremo Tribunal Federal exigida pela Constituição para que um presidente da República seja processado

Dessa vez, porém, as chances de Temer conseguir um livramento na Câmara são bem menores. Graças ao recesso branco que esvazia o plenário do Legislativo durante o período de pré-campanha eleitoral, para que deputados e senadores cuidem da própria reeleição. Além disso, o emedebista pena com a disposição de vários parlamentares da base aliada do governo de descolar suas imagens da dele, temendo prejuízos políticos nas urnas.

Com a agulha da bússola enlouquecida, o presidente tentou mais uma guinada estratégica na sexta-feira passada (04). Concedeu uma longa entrevista à Rede Brasil de Comunicação – empresa oficial do governo – na qual tentou a todo custo minimizar o impacto de uma terceira investida do Ministério Público. Com isso, porém, deixou clara nas entrelinhas a compreensão que é a denúncia é uma ameaça palpável, que paira bem acima da sua cabeça e da qual não escapará tão fácil como das outras vezes. Novas tentativas de correção de rumo certamente estão por vir, mas o naufrágio parece cada vez mais inevitável.