Temer a poucos passos do abismo

(Reprodução/Internet)

A segunda quinzena de maio começa com duas constatações: há um par de anos não se ouve mais no Brasil aquele entusiasmado e ensurdecedor som de panelas; e apesar da aproximação da Copa do Mundo, a perspectiva é de uma queda sensível nas vendas de camisas verde-amarelas da seleção canarinha. Agradecimentos por essa nova realidade devem ser enviados diretamente ao terceiro andar do Palácio do Planalto. É lá que senta o homem que, ao tomar posse dois anos atrás, pedia votos de confiança dos brasileiros, prometendo um país pacificado e um governo livre de corrupção.

Quando assumiu o comando da nação, Michel Temer (MDB) já largou com 30% de rejeição. Teóricos mais otimistas justificavam, na época, que o índice negativo era normal, porque correspondia à média histórica de eleitores do PT. Mas os números dobraram ao final do primeiro ano de gestão, e viraram o segundo ano ultrapassando a marca histórica de 70%, concedendo ao emedebista o título de presidente mais impopular da história recente do país.

Mas o que esperar de um governante alçado ao poder, em tempos de democracia, sem o lastro do voto popular, além do atendimento dos interesses prioritários de uma minoria que respaldou sua ascensão? Como marca, sua gestão conseguiu aprovar propostas como a limitação do teto de gastos públicos, uma reforma trabalhista redigida pela elite empresarial, a flexibilização nas regras de exploração de petróleo e outras questões que assustaram até quem não entendia muito bem do assunto.

Mas o presidente terminou por surpreender até mesmo seu restrito e poderoso grupo de apoiadores, ao ser gravado em negociações espúrias no porão do Palácio do Jaburu. O contraparte na conversa, que virou delator, era o empresário Joesley Batista, proprietário da JBS – empresa que, junto com outras gigantes do mercado, como a Odebrecht, cultivava o hábito de distribuir gordas fatias de dinheiro a políticos de estimação, em troca de fidelidade canina.

Ao longo de dois anos, Michel Temer fez o que pode para reduzir os gritos de golpista entoados diariamente sob sua janela pelos adversários. Que se já não eram poucos, tiveram suas fileiras engrossadas por ex-aliados desenganados, cientes do potencial de toxidade que a imagem do atual chefe da nação é capaz de transmitir a qualquer palanque em que ele colocar os pés. Isso inclui setores do seu próprio partido, o MDB, que não se aproximam nem protegidos por máscaras de oxigênio.

Para quem chegou até a analisar a hipótese de renúncia após a divulgação das gravações bombásticas, Temer demonstrou ter couro duro. Enfrentou e venceu duas denúncias do Ministério Público por corrupção e organização criminosa, impedindo a peso de ouro na Câmara dos Deputados a aprovação da licença para que fosse processado. Também sobreviveu a diversas outras acusações disparadas por delatores em depoimentos negociados com a Justiça.

Ainda assim, com a pré-campanha entrando na reta final agora em maio, o presidente já não conta com a massa de aliados que dispunha na época em que liderava conchavos para assumir o posto, então ocupado por sua companheira de chapa, Dilma Rousseff (PT). Os erros foram tantos, e o desgaste é tamanho, que sua base – formada, majoritariamente, por veteranas raposas da política – encolheu o suficiente para ligar o alerta quanto à possibilidade do acatamento de uma iminente terceira denúncia pela Câmara.

Sem maioria, e isolado como um doente pestilento, Temer já não tem número suficiente para aprovar qualquer projeto importante em um Legislativo esvaziado, com deputados e senadores preocupados exclusivamente com a própria sobrevivência. Ele já enxergou essa realidade desde que recuou da reforma previdenciária e, no desespero, focou na questão da violência – tema recomendado por marqueteiros – decretando intervenção federal no Rio de Janeiro e criando o Ministério da Segurança Pública.

O efeito, porém, não foi o esperado. Os assassinatos da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes, somados aos frequentes tiroteios nas comunidades, e com as forças intervencionistas de mãos amarradas por falta de recursos e regras impossíveis de romper empurraram o presidente para mais perto do abismo.

Resta uma pequena distância até a queda fatal, mas mesmo que ele consiga se segurar por mais tempo, algumas coisas já estão bastante claras: o governo acabou bem antes do prazo de validade previsto, e, ao ultrapassar formalmente a linha de chegada, em 31 de dezembro – quando perderá o benefício da imunidade assegurado pelo cargo e voltar à condição de cidadão comum – Temer deve trocar a glória do pódio, que tanto esperava, pelas barras dos tribunais. E parece não ter mais qualquer estratégia para contornar o futuro que o aguarda.