A lei do menor esforço concentrado

Uma cena que se repete em todo ano de campanha eleitoral: plenário do Congresso vazio e projetos nas gavetas, aguardando votação (Foto: Arquivo/CD)

Começa nesta segunda-feira (13) o segundo período de “esforço concentrado” na Câmara dos Deputados. É tudo, menos esforço de verdade, e pelo fiasco que foi o primeiro período, é possível prever o insucesso deste que se inicia. O esforço concentrado é um acordo de lideranças, tradicionalmente firmado em anos eleitorais para que, durante a campanha, projetos importantes para o país não deixem de ser votados por falta de quórum nas sessões. Nesse lapso de tempo, que vai de agosto a outubro, com os deputados preocupados exclusivamente com suas candidaturas, o plenário da Casa fica às moscas. Marcam-se, então, duas ou três semanas nas quais, em tese, todos concordam em dar pausa nas campanhas para ir à Brasília trabalhar.

Ordem e barbárie

Jair Bolsonaro e o vice Hamilton Mourão: discurso afinado e defesa de intervenção militar no caso de uma eventual candidatura de Lula (Foto: Arquivo/DC)

A escola de Jair Bolsonaro continua rendendo frutos. Invariavelmente, aguados. Afinado com o presidenciável do PSL no discurso militarista, seu vice, o general da reserva Hamilton Mourão (PRTB), voltou a falar em intervenção no país. Em uma entrevista ao jornal Valor, ele afirmou – procurando sempre dar um tom grave à advertência – que uma eventual candidatura do ex-presidente Lula (PT) poderia provocar uma “revolta popular”, o que seria justificativa suficiente para que os militares trocassem os quartéis pelas ruas.

Aperitivo insosso para o eleitor

Com a ausência do candidato do PT, oito dos 13 presidenciáveis protagonizaram um primeiro debate enfadonho na TV (Foto: Divulgação)

Superficial e tedioso. Assim foi o primeiro debate entre oito dos 13 presidenciáveis alinhados na disputa deste ano, promovido pela Band TV na noite desta quinta-feira (09). O encontro só não ficou mais sonolento graças à performance nonsense do candidato do Patriota, Cabo Daciolo – até então desconhecido de alguns dos próprios concorrentes. O “servo do Deus vivo”, como se declarou o bombeiro militar, surpreendeu a todos com propostas como o banimento do comunismo no país e promessas de elevar o Brasil à primeira potência econômica do mundo em quatro anos.

O aliado oculto

Nenhum dos 17 ex-ministros que disputam a eleição se dispõe a exibir Michel Temer como aliado no seu palanque (Fotomontagem/Internet)

Em tempos de campanha eleitoral, enquanto candidatos de diversas tendência disputam o apoio do ex-presidente Lula (PT), mesmo estando ele preso e condenado em segunda instância por corrupção, outros querem distância de um aliado incômodo: o presidente Michel Temer (MDB). Nada menos que 17 ex-ministros do governo-tampão submeterão seus nomes ao eleitor agora em outubro, disputando a vagas que vão desde a Câmara dos Deputados até a do próprio ex-chefe. E somente neste único caso, o ex-ministro da Fazenda Henrique Meirelles, presidenciável do MDB, chega a mencionar Temer de maneira mais aberta, embora não escancarada.

Cortando na carne alheia

Ministros se queixam de defasagem de 50% dos salários. Bola de neve orçamentária pode chegar a R$ bilhões no país (Foto: Nelson Jr./STF)

O Brasil é mesmo o país da “cara lavada”. O exemplo negativo, aqui, geralmente parte de quem deveria atuar exatamente ao contrário. Dessa vez, veio dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que pleiteiam um reajuste salarial de 16,38% a partir de 2019. Como a remuneração da corte – que atualmente é de R$ 33, 7 mil e passaria a R$ 39,2 mil –  determina o teto salarial do funcionalismo público brasileiro, o aumento pode causar um impacto de quase R$ 2,8 milhões a mais no orçamento do STF, e produzir um efeito cascata nas outras esferas do Judiciário que pode chegar a R$ 717 milhões. Se ampliado para os demais poderes, a bola de neve orçamentária chegaria a R$ 3 bilhões.

Alckmin em casa de ferreiro

Os quase oito anos de governo não foram suficientes para dar a Alckmin a liderança nas pesquisas em São Paulo (Foto: Divulgação)

Estar apoiado em uma confortável coligação, que reúne nada menos que dez partidos, não parece ter facilitado a vida do presidenciável do PSDB, Geraldo Alckmin, ao se levar em conta o desempenho que vem obtendo no Estado que governou por quase oito anos. Pesquisa realizada pelo Instituto MDA, sob encomenda da Confederação Nacional de Transportes (CNT), exclusivamente no Estado de São Paulo, revela que se a eleição fosse hoje, o tucano ficaria na segunda colocação, com 15% das intenções de voto, abaixo do candidato do PSL, Jair Bolsonaro – deputado pelo Rio de Janeiro – que lidera o levantamento com 18,9% das preferências dos paulistas.

Um problema chamado vice

A comunista Manuela D’Ávila desistiu da disputa para assumir a vice do PT, ainda indefinida. Mas suas posições não acrescentam muito à chapa (Foto: Divulgação/PT)

Se a escolha de um vice deveria servir para agregar votos e ampliar o espaço de diálogo com a sociedade, na disputa presidencial deste ano foram poucos os que atingiram esse objetivo. Na maioria das vezes, o cargo – cuja extinção já chegou a ser sugerida em mais de uma ocasião, dada  sua pouca relevância ao longo do mandato – funciona apenas como instrumento de barganha na composição de alianças e para ampliar o tempo de propaganda gratuita na TV. E em lugar de diversificar o discurso da chapa, simplesmente reforça posições já existentes.

Dobradinha indigesta

Em almoço-palestra, Mourão lamentou que brasileiros sejam afeitos a “mártires, líderes populistas e macunaímas” (Foto: Júlio Soares/Divulgação)

Lastimável e desrespeitosa. Economizando adjetivos, é melhor resumir assim a estreia do candidato a vice-presidente da República Hamilton Mourão (PRTB) ao microfone da campanha eleitoral. Talvez tenha sido uma tentativa de copiar o estilo bravateiro e desbocado do seu companheiro de chapa, o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), ou quem sabe eles sejam, de fato, almas gêmeas na arte de cuspir agressividades gratuitas. O fato é que, de acordo com a análise antropológica “abalizada” feita pelo referido general da reserva, o Brasil está nessa situação de crise absoluta graças à herança da “indolência” indígena e à “malandragem” dos africanos, trazidos para o país como escravos.

Meu nome é…

Ao longo de três eleições presidenciais, Enéas Carneiro usou seus poucos segundos na TV para fixar o bordão com seu nome (Foto: Reprodução)

Quem tem mais de 30 anos de idade certamente lembra do mais caricato entre todos os candidatos à Presidência da República que já desfilaram pela televisão, o Doutor Enéas Carneiro. Nas três eleições que disputou, o ultraconservador fundador do Partido da Reedificação da Ordem Nacional (Prona) entrou para o folclore político com seus ínfimos 15 segundos nos programas do guia eleitoral na TV, que o obrigavam a falar muito rápido, encerrando sempre com o bordão “meu nome é Enéas!” Essa, geralmente, era a única frase compreendida pelos eleitores. Pois na disputa presidencial deste ano, teremos não apenas um, mas sete candidatos no “padrão Enéas” de propaganda.

A terceira via do PSB

Solidez do PSB criada em torno da candidatura presidencial de Eduardo Campos em 2014 ruiu após o seu desaparecimento (Foto: Arquivo)

Dos partidos ditos dominantes na cena política nacional, apenas o PSB terminou sem representante na disputa presidencial deste ano. Aquela forte unidade demonstrada em 2014 torno da candidatura do ex-governador  Eduardo Campos ao Palácio do Planalto – articulada por ele a unhas e dentes – ficou só na memória, ainda que sequer tenha servido como lição aos que herdaram o comando partidário. Uma lição que inclui estratégias para soerguer uma legenda e levá-la ao primeiro pelotão da política.