Constituição, sereias e cisnes

Sessão do Congresso que promulgou a Constituição Federal em 1988, eliminando resquícios do regime de exceção. Trinta anos depois, a democracia é novamente colocada sob ameaça (Foto: Arquivo/CN)

Com o país ainda engatinhando no processo de redemocratização, após duas décadas de ditadura militar, a promulgação da atual Constituição Federal era comemorada com festa no dia 5 de outubro de 1988. A quase coincidência da data com a eleição deste ano até poderia ser saudada. Afinal, ali se assinalava um marco, um “respiro” após tanto tempo de cidadania sufocada por botas e baionetas. Infelizmente, porém, o quadro que se desenha para o futuro não permite comemorações. O desfecho da disputa eleitoral sinaliza uma ameaça real de retrocesso que pode jogar na lata do lixo trinta anos de uma Constituição que, longe de ser perfeita, ao menos garante alguma liberdade e democracia.

Um carrasco em comum

Representantes da tradicional polarização PSDB-PT, Alckmin e Haddad sofrem com a disparada de Bolsonaro nas pesquisas (Foto: Mauricio Camargo/BPP)

A ascensão do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) nas pesquisas, exatamente na reta final da corrida sucessória, surpreendeu dois tradicionais adversários que há décadas vinham polarizando os embates no país. Desnorteadas com o terreno exageradamente acidentado que não esperavam enfrentar, as cúpulas petista e tucana se desentendem internamente, vivenciando rachas nos seus respectivos comandos de campanha sobre as estratégias a serem adotadas para tentar conter a disparada do deputado-capitão.

Todos contra todos

(Ilustração: Reprodução Internet)

Quando algo dá errado ou frustra expectativas, o brasileiro, em geral, costuma jogar a culpa em quem estiver mais próximo. Confirmando essa máxima, há quem tenha decidido responsabilizar o único movimento de massas que teve coragem de ir às ruas nesta campanha para protestar contra o recrudescimento dos discursos fascistas pós-modernos. A mobilização do #EleNÃO, organizada pelas mulheres em todo o país no último final de semana, pode até não ter colaborado para tirar votos do presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), mas culpá-lo pelo crescimento do candidato nas últimas pesquisas Ibope e Datafolha é pura cegueira política.

O caos como matéria-prima

Guernica: um minuto antes. Obra de Millôr Fernandes executada em 1981, mas ainda absolutamente atual (Reprodução: Acervo MF)

Já dizia o genial Millôr Fernandes: “livre pensar é só pensar”. Uma frase, aliás, cunhada em tempos sombrios da ditadura militar. Mesmo sem um décimo da coragem do mestre, nos arrisquemos a pensar um pouco: por que, após mais de seis meses depois de ouvir a delação do ex-ministro Antônio Palocci, e faltando somente seis  dias para uma das eleições mais complicadas desde a redemocratização, o juiz Sérgio Moro decidiu liberar trechos do depoimento com o qual o ex-aliado de Lula tentava salvar a pele? E mesmo depois de o próprio Moro ter descartado juridicamente as denúncias de Palocci no processo contra o ex-presidente, por ausência de provas que as referendassem?

Está só começando…

Ódio político evidenciado na campanha deve se estender até depois da eleição, gerando mais instabilidade para o futuro governo (Foto: Sérgio Castro/AE)

As manifestações do final de semana evidenciaram um fato preocupante e, pelo que se pode enxergar, longe de se resolver: o acirramento agudo e o racha social que põe em risco a já instável democracia brasileira. Está claro que as eleições deste ano não serão suficientes para voltar a unir a sociedade, tampouco cimentar essa fissura do “nós contra eles”. Pelo contrário, o clima que se desenha – a calcular pelo ânimo vistos nas ruas – é de aprofundamento do abismo. A reunião de forças em um dos lados, contra o outro lado, que teima em engatar uma marcha à ré histórica só antecipa qual deverá ser a temperatura do país a partir de novembro.

Inimigo meu

Verborragia de Mourão preocupa e abala de vez o clima sorridente que marcou o início da campanha de Jair Bolsonaro (Foto: Marcelo Chello/AE)

Lares conduzidos por mães e avós são fábricas de filhos desajustados. Os males do Brasil se devem à herança ibérica, indolência dos índios e malandragem dos africanos. Parceiros comerciais latino-americanos e africanos são uma “mulambada”. E o 13º salário dos trabalhadores – consolidado em cláusula pétrea da Constituição –nada mais é que uma “jabuticaba brasileira”. Mesmo com toda a radicalidade contida nas suas propostas populistas de governo – algumas bastante insanas – o presidenciável do PSL, Jair Bolsonaro, não tem a menor chance contra a verborragia do candidato a vice na sua chapa, Hamilton Mourão (PRTB).

Excluídos na letra da lei

Decisão final do STF mantém cancelamento de cerca de 3,4 milhões de eleitores, que não fizeram o recadastramento biométrico (Foto: Reprodução/Internet)

No segundo turno das eleições presidenciais de 2014, a diferença de votos entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) foi de aproximadamente 3,5 milhões. Esse é quase o número total de títulos de eleitor cancelados com a chancela do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quarta-feira (26), quando, por sete votos a dois, a Corte rejeitou recurso do PSB pela manutenção do direito ao voto para eleitores que não realizaram o cadastramento biométrico obrigatório. No caso de repetir-se uma disputa apertada como a da eleição presidencial anterior, a ausência desses votantes pode ser decisiva.

Temer, um incorrigível

Em sua última participação na ONU como chefe de Estado, Michel Temer elogiou o próprio governo, falou em “equilíbrio” e insistiu nas reformas (Foto: Jewel Samad/AFP)

O título de presidente mais impopular da história do país parece não bastar a Michel Temer (MDB). Depois de participar, nesta terça-feira (25), da Assembleia Geral da ONU – na qual fez suas despedidas como chefe de Estado – o emedebista deixou escapar seus planos de, logo após as eleições, suspender ou até revogar a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro, decretada por ele no início do ano. O motivo: votar a reforma da Previdência. Pois é, aparentemente Temer deve estar se sentindo esquecido pelos brasileiros, envolvidos no furacão da campanha eleitoral, e, de uma forma um tanto masoquista, decidiu que é hora de retomar o protagonismo político. Ainda que, como de costume, negativo.

Polarização, mas nem tanto

Espremidos entre Bolsonaro e Haddad, Ciro, Alckmin e Marina detém 24% das intenções de voto, segundo o Ibope. Outros 26% estão nas mãos dos candidatos nanicos e dos indecisos (Fotomontagem: Internet)

Mais que a estagnação do líder Jair Bolsonaro (PSL) no patamar de 28% em relação à rodada anterior, ou o crescimento de três pontos de Fernando Haddad (PT), de 19% para 22%, os números da nova pesquisa do Ibope divulgada na noite desta segunda-feira (24) indicam que cerca de 50% dos eleitores brasileiros se mantém alheios à polarização da disputa. E é exatamente dessa fatia que dependerá a vitória de qualquer candidato num segundo turno das eleições.

As cadelas e o ovo da serpente

(Reprodução: Geopoliticus Child/S. Dali)

Pernambuco viveu um final de semana agitado na política, com a visita de alguns presidenciáveis de olho no filão de votos do ex-presidente Lula e dos antipetistas. Houve discursos para todos os gostos – dos mais grosseiros aos mais refinados – e algumas notas trágicas, como a versão funk-preconceito entoada pelos simpatizantes de Jair Bolsonaro (PSL) na orla do bairro nobre de Boa Viagem. Também teve “galo fora de época” no centro do Recife, com Fernando Haddad (PT), a língua ferina de Ciro Gomes (PDT) contra os adversários e até candidato sem palanque local, Geraldo Alckmin (PSDB), pregando o voto útil para tentar escalar as pesquisas.