É a percepção, estúpido!

Pesquisa avalia percepção do brasileiro sobre eventos recentes, como a condenação de Lula (Foto: Reprodução)

Juliano Domingues*

A política nacional está imersa em um ambiente de profunda imprevisibilidade. Qualquer tentativa analítica que se proponha a reduzir o grau de incerteza passa, necessariamente, pela variável “percepção”. Quando investigada adequadamente, chega-se próximo da “realidade” a partir da qual é possível inferir como o eleitor se comportará nas urnas. Dados da pesquisa “A cara da democracia”, divulgados semana passada pelo jornal Valor, oferecem informações importantes para análises que pretendem seguir esse caminho. O estudo foi realizado pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, instituição que integra o Programa de Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCT) e é formada por grupos de pesquisa de quatro universidades (UFMG, IESP/UERJ, Unicamp e UnB).

Dentre os números, merecem destaque aqueles referentes à percepção quanto a eventos cruciais da história recente do País envolvendo Lula e Dilma. A pesquisa indica que 45,5% concordam com a condenação do ex-presidente. Desses, 30,3% concordam muito e 15,2% concordam pouco. Por outro lado, 39,1% discordam da decisão da Justiça Federal, dos quais 27,6% discordam muito e 11,5% discordam pouco. Outros 10,3% se disseram indiferentes e 5% não responderam.

O survey foi realizado em março, antes da prisão do ex-presidente. Porém, os números são similares aos de levantamento do Datafolha, realizado após a prisão, segundo o qual 40% dos eleitores consideram Lula vítima de injustiça. Infere-se, pois, que esse entendimento indica relativa fragilidade do discurso eleitoral de combate à corrupção centrado na condenação e prisão do líder do PT.

Outro dado relevante da pesquisa do Instituto da Democracia diz respeito à percepção do eleitor em relação à queda de Dilma. Para 47,9% dos entrevistados houve um golpe. Já 43,5% consideram que o impeachment fez parte do processo democrático, enquanto 8,6% não responderam. Esses percentuais sugerem que a narrativa do golpe está vencendo a acirrada disputa pela percepção do eleitor.

O entendimento que se consolidar como o mais compartilhado ganha status de “verdade”. Isso aumentará as chances da percepção se refletir em comportamento eleitoral. É tentador, portanto, relativizar a célebre frase de James Carville, um dos consultores de Bill Clinton. De “É a economia, estúpido!”, que tal pensar em “É a percepção, estúpido!”?

*Cientista político e professor da Unicap