A roupa velha do presidente

(Reprodução/Internet)

A cerimônia que marcou os dois anos de governo Michel Temer (MDB), nesta terça-feira(15), certamente é um acontecimento para não ser esquecido. Espectadores com um mínimo de equilíbrio emocional e político devem ter saído do evento palaciano com uma de duas impressões: foi puro delírio ou um show de sofismas. A começar pelo fato de o presidente ter convidado os aliados para “comemorar” seu biênio como substituto da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), cujo mandato ele próprio colaborou para subtrair. No discurso, ponto alto da festa, Temer ignorou mais uma vez o cenário negativo, tanto social como econômico e político, vivido pelos brasileiros.

A cerimônia em si já revelava o contraditório da “comemoração”. Não bastasse o esvaziamento, reflexo de um final melancólico de mandato, algumas ausências significativas se destacaram, como as dos presidentes da Câmara Federal e do Senado – Rodrigo Maia (DEM-PE) e Eunício Oliveira (MDB-CE) – ambos ex-apoiadores diretos do presidente. Aparentemente indiferente, Temer comandou seu ensaio de delírio coletivo lançando mão de vários recortes de dados oficiais, dos quais extirpou a parte podre para enaltecer avanços que atualmente só ele e uma pequena trupe fingem acreditar.

O comportamento presidencial lembrou a fábula do imperador nu, do dinamarquês Hans Christian Andersen, na qual, para não parecerem idiotas, os súditos garantem enxergar a beleza da nova roupa do regente, confeccionada por um trapaceiro com um rico tecido supostamente visível apenas a pessoas inteligentes. Até que, em meio à parada real, um corajoso garotinho brada a nudez do soberano.

A solenidade teve dois momentos distintos: o lançamento da cartilha “Avançamos – 2 anos de vitórias na vida de cada brasileiro” – e o discurso otimista. Em ambos, além de maquiar vários números e indicadores negativos da sua gestão, o sorridente anfitrião ignorou os escândalos de corrupção e as investigações da Lava Jato, e sequer mencionou as duas denúncias apresentadas contra ele, ainda que fosse para defender-se.

Ainda sobraram confetes para a intervenção federal no Rio de Janeiro, decretada por Temer para combater a violência no Estado e, de quebra, desviar o foco do fracasso da reforma da Previdência. Entretanto, foram omitidos os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e seu motorista, Anderson Gomes, ainda sem solução, assim como os números atualizados dos crimes na capital fluminense.

O grand finale veio na expressão de auto gratidão de Temer por ter salvo a Petrobras do colapso e o destaque para o “exitoso” processo de privatização da Eletrobras – projeto polêmico que ainda permanece travado no Congresso Nacional, longe de um desfecho. “Sem dúvida, todos nós fomos responsáveis por tirar o Brasil do vermelho e colocar o país no rumo certo. Não são palavras apenas. Os fatos comprovam”, disparou o imperador desnudo, concluindo com uma pregação em defesa da paz política, na qual conclamou que “brasileiros não fiquem contra brasileiros”.