A ditadura, os bois e a boiada

Geisel e Figueiredo, na transmissão de cargo: ordem direta para assassinatos (Foto: Arquivo)

Como se já não fosse extremamente grave a comprovação de que os ex-presidentes militares Ernesto Geisel e João Figueiredo autorizaram pessoalmente o assassinato de dezenas de militantes contrários à ditadura, enquanto publicamente negociavam a redemocratização, uma breve navegação na internet, nesta sexta-feira (11), é de deixar qualquer ser humano (no sentido absoluto da palavra)  chocado e indignado. Não é pequena a quantidade de comentários em sites noticiosos e nas redes sociais de apoio às ações do regime de exceção, e até mesmo “comemorando” a notícia –  contida em um relatório confidencial da CIA (leia aqui), revelado ao público esta semana.

Algumas declarações têm tom saudosista, pedem o retorno dos militares ao poder, enaltecem suas ações e voltam a xingar “comunistas” e “arruaceiros”. É algo deveras preocupante, se levarmos em conta o fio da navalha em que hoje o Brasil se equilibra politicamente. Não foram poucos os que – deixando a natureza humana de lado – lançaram mão do velho argumento de que não se deve reclamar da repressão no Brasil, porque não chegou a fazer 500 vítimas, enquanto foram mortos cerca de 50 mil argentinos e 40 mil chilenos por regimes semelhantes implantados naqueles países.

Primeiramente, esse número no Brasil pode ser bem mais elevado, considerando-se a dimensão continental do país e a ausência de pesquisas aprofundadas como as realizadas pela Comissão da Memória e Verdade, a partir de 2014. Entretanto, muito mais importante que números e estatísticas é o fato de que cada ser humano é único, e cada assassinato diminui a já combalida dignidade humana.

É fato que a ditadura militar no Brasil se beneficiou da passividade da ampla maioria dos brasileiros. Lamentavelmente predominou, mais uma vez, a tese do “homem cordial”, consolidada pelo historiador Sérgio Buarque de Hollanda em seu “Raízes do Brasil”. Somos cordeiros, e prova disso é que, até hoje, praticamente a totalidade dos agentes da repressão continua impune, enquanto em países vizinhos eles foram caçados, expostos e, de alguma forma, pagaram pelos seus crimes.

No Brasil, a Anistia “ampla, geral e irrestrita” – condição imposta pelos próprios ditadores para aceitar a abertura – beneficiou vítimas e carrascos. E não adianta mais tentar justificar que houve perdas de ambos os lados. É balela, como revelou o trabalho das Comissões da Verdade. Acima de tudo, ficou claro que se não houvesse ditadura, não haveria resistência. Por conseguinte, não teríamos mortos e desaparecidos.

É evidente que não existe ditadura boa, ditadura construtiva, como se tentou justificar à época. Assim como nada numa ditadura deve surpreender alguém. Nem mesmo a descoberta, 50 anos depois, que a ordem para algumas execuções era dada diretamente pelo general-presidente da vez. Basta analisar os sombrios resultados do AI-5. Sentindo a perda de poder, a repressão se autoconcedeu uma licença para perseguir mais, torturar mais, matar mais. A denominação “regime autoritário” já diz tudo. É o antônimo de “regime democrático”.

Triste é ver que – mesmo diante de tanta informação disponível hoje em dia – ainda há um contingente de eleitores dispostos a engolir o discurso messiânico de quem se ofereça para ressuscitar esses fantasmas. Gente que, na tentativa de rebater uma informação dura como a contida em um relatório oficial da CIA, no máximo consegue elaborar questionamentos do tipo: “quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e, depois, se arrependeu?”. Ou simplesmente, na falta de mais argumentos, exige que se lhe apresentem os cadáveres. Como se desconhecesse que a maioria dos corpos ainda jazem em cemitérios clandestinos, nas valas de indigentes, nos fornos de carvoarias e onde mais a repressão encontrasse brechas para “dar fim” às provas dos seus crimes.

É certo que o voto é um direito inquestionável e inviolável garantido a cada cidadão pela Constituição. O que não impede esse cidadão de refletir um mais pouco antes de escolher. Com o país praticamente desconstruído por denúncias e atos de corrupção, e assolado por crises econômica, política e ética, é no mínimo irresponsável o brasileiro que ainda insista em agir como gado, simplesmente se deixando levar com a boiada sem questionar para onde. E nunca é pouco lembrar: o direito ao voto só existe, hoje, exatamente porque não vivemos mais numa ditadura.