Uma indefinição perigosa

Indefinição no PT quanto à substituição de Lula atrapalha candidatos nos Estados, como Marília Arraes (Foto: Divulgação)

Quem acompanha mais de perto a história recente das eleições no Brasil percebe a distância entre o atual PT e aquele partido que lutou incansavelmente por mais de 20 anos até chegar à Presidência da República. Outrora formado por várias tendências distintas, famosas por brigarem arduamente entre si mas, ao final, marcharem unidas em torno de um só projeto, o PT de hoje parece uma nau sem rumo em nível nacional, com reflexos danosos em vários Estados. Com seu líder maior preso, e na ausência de alguns petistas históricos – que deixaram o partido, estão presos ou faleceram – pesa sobre os atuais dirigentes a responsabilidade de soerguer uma legenda carregada de divergências e que ainda sangra com tantas denúncias.

Delação premiada em xeque

Absolvição de Gleisi Hoffmann pelo STF expõe fragilidade das delações premiadas (Foto: Arquivo)

Ao absolver a presidente nacional do PT, senadora Gleisi Hoffmann, das acusações de corrupção e lavagem de dinheiro na campanha eleitoral de 2010, o Supremo Tribunal Federal (STF) criou uma espécie de jurisprudência às avessas. Sob o argumento de que as acusações contra a mais fiel defensora do ex-presidente Lula estavam amparadas apenas em delações premiadas, sem a anexação de provas concretas ao processo, a corte deixou claro que aquele instrumento, por si só, não é base suficiente para condenar ninguém. A decisão, porém, pode terminar gerando uma ameaça ainda maior às investigações de crimes de colarinho branco.

De quem é mesmo a caneta?

Diversos exemplos já deixaram claro o recado: no Brasil, ninguém governa sem a chancela do Congresso (Foto: Dida Sampaio/AE)

No Brasil, a velha máxima de que qualquer partido político tem como objetivo chegar ao poder pressupõe uma análise mais atenta sobre a representação real de “poder”. Para aqueles que insistem em não manter os pés no chão, o poder mais elevado do Brasil reside no gabinete do terceiro andar do Palácio do Planalto. Aos mais realistas, porém, o pragmatismo ensina que o verdadeiro poder circula pelos corredores de outro prédio nas vizinhanças. Ali, na mesma praça. Embora carimbado na sua própria Constituição como adepto do regime presidencialista, o Brasil está longe de concentrar o comando nas mãos do presidente da República.

Juventude exilada

Sem esperança em mudanças no país, cada vez mais brasileiros sonham com a vida no exterior (Foto: Arquivo/Folha)

Triste de um país que não alimenta mais esperanças na alma das suas futuras gerações. Assim é o Brasil, fato dolorosamente comprovado pela pesquisa do Instituto Datafolha divulgada neste domingo (17). Ao menos 62% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos de idade ouvidos no levantamento admitiram ter vontade de abandonar o país. Em números reais isso representaria uma migração para o exterior de nada menos que cerca de 70 milhões de pessoas. Numa comparação feita pelo Datafolha, seria como se desaparecesse, de uma hora para a outra, um contingente de pessoas equivalente às populações dos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, juntos. É grave, principalmente para um país que já sofre com o processo de envelhecimento.

Decisão coercitiva

Por 6 votos a 5 STF proíbe a condução coercitiva de investigados: prejuízo para a Lava Jato (Foto: Arquivo/STF)

No país das contradições e arranjos, os poderes constituídos continuam revelando um desequilíbrio de meter medo. A bola da vez é a polêmica decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de considerar inconstitucional a condução coercitiva. Dispositivo inserido no Código de Processo Penal brasileiro desde 1941, ela serviu bem à sua finalidade enquanto ajudava a obter depoimentos de arraias miúdas, envolvidas em algum tipo de investigação. Curiosamente, foram necessários quase 80 anos e uma intensa onda de denúncias e prisões de poderosos – deflagrada pela Operação Lava Jato e suas similares – para que o STF concluísse pela sua ilegalidade, sob o argumento de que o acusado não deve produzir provas contra si mesmo.

Uma pausa para o ópio

Mesmo com o favoritismo da seleção, sequência de crises abafa o clima de Copa do Mundo no Brasil (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

Começou a Copa de 2018, mas no país do futebol, os sete gols marcados pela seleção alemã há quatro anos ainda não cicatrizaram de todo. E o resultado humilhante de 2014 não ficou limitado às quatro linhas do Mineirão. Desde a tão comentada “copa das copas” o Brasil não conseguiu mais se por em pé. Nosso futebol até que melhorou, é bem verdade, e chega à Rússia entre os favoritos. Ao contrário da situação geral do país, que continua sofrendo goleadas diárias de uma maneira tal que nem mesmo todo o “ópio” gerado pelo mundial – um dos eventos mais aguardados a cada quatro anos – já não basta para aliviar as dores do brasileiro.

Excesso de gordura

Conversas entre Ciro Gomes e representantes de partidos do Centrão deixam eventuais aliados de orelha em pé (Daniel Marenco/O Globo)

Embora não seja de todo inesperado, o canal de diálogo estabelecido pelo presidenciável do PDT, Ciro Gomes, com partidos integrantes do Centrão – a exemplo do DEM e do PP – provocou rebuliço na ala de centro-esquerda, que há muito vem mantendo o pedetista no horizonte de uma aliança. Na maior tranquilidade, porém, Ciro avisou que, na condição de pré-candidato, conversará com todos que o procurarem. Trata-se de uma regra básica da política, de que apoio não se rejeita, venha de onde vier. Dentro dessa regra, ele terá um encontro esta semana com o ainda presidenciável do DEM, Rodrigo Maia, que já sinalizou com a hipótese de desistir da postulação em nome de uma aliança que valorize seu partido.

O nó dos palanques nacionais

Após anunciar Mendonça como candidato ao Senado, Armando agora terá que montar o restante da chapa de olho no cenário nacional (Foto: Arquivo)

Ao anunciar metade da sua chapa majoritária nesta segunda-feira (11), o senador Armando Monteiro (PTB) não tratou de um tema que lhe será bastante caro ao longo da campanha: a disputa presidencial. A pluralidade de representantes de palanques nacionais dentro da sua chapa, aliada à estratégia dos adversários da Frente Popular de colar nele a imagem desgastada do presidente Michel Temer (MDB) – proprietário de estratosféricos 82% de impopularidade – será um complicador a mais. Afinal, Armando carrega consigo nada menos que três ex-ministros do atual governo, e um deles, Mendonça Filho (DEM), já foi oficializado como pré-candidato ao Senado.

Sobre candidatos e hologramas

Cercado por militantes, Lula deixa sede do Sindicato dos Metalúrgicos no ABC para se entregar à Justiça (Foto: Reuters)

Um dia após completar dois meses na prisão, Lula terá sua candidatura lançada nesta sexta-feira (08), em Belo Horizonte. O local foi escolhido como uma demonstração de força, já que Minas Gerais é o maior Estado governado por um petista, Fernando Pimentel. Apesar de parecer um delírio coletivo – uma vez que o ex-presidente permanece atrás das grades, sem previsão de ser libertado e com todos os recursos judiciais praticamente esgotados – a festa faz parte da estratégia do PT de sustentar publicamente não haver Plano B do partido na disputa e, assim, tentar manter cativo o eleitor que tem garantido a Lula liderança absoluta nas sucessivas pesquisas.

Mais uma novela mexicana

Seja ficção policial ou ópera sabão, enredo fica cada vez mais complicado para Temer (Foto: Reprodução/Internet)

A chiadeira do Palácio do Planalto diante das novas investidas contra o presidente Michel Temer (MDB) por parte dos investigadores da Polícia Federal, no já conhecido caso do Decreto dos Portos, foi curiosa e insólita. Pela primeira vez o emedebista reagiu diretamente, classificando a investigação como mais uma “obra de ficção, digna do Projac” – ali, onde ficam os estúdios da TV Globo do Rio de Janeiro. O roteiro da historinha, porém, tem muito mais jeito de telenovela mexicana. Daquelas com enredo melodramático e interminável.