Panaceia à brasileira

Segundo denúncia, empresas privadas estariam pagando impulsionamento de notícias falsas nas redes sociais de Bolsonaro (Reprodução/Internet)

O Brasil definitivamente é um país de pouca sorte com seus governantes. Seria culpa exclusiva do eleitor, que escolhe mal seus candidatos, ou de toda uma estrutura corroída e podre que induz à eleição de falsos messias e pseudo-salvadores da pátria? O desespero é visível na fisionomia do eleitor médio, seja em eventuais entrevistas exibidas na TV, seja em discussões políticas furtivas, observadas nas ruas. Tentando escalar paredes de azulejo, o brasileiro clama por alguém que não apenas fale o que ele quer ouvir, mas que faça coro com o seu sentimento de frustração e raiva. Ainda que o discurso não passe de mero teatro, uma adaptação do conhecido adágio popular para a versão “me engana, porque eu preciso”.

Tecnologia da destruição

Whatsapp tem sido o responsável pela maior profusão de fake news na campanha, dificultando a fiscalização (Foto: Reprodução/Internet)

Dados coletados até o momento por especialistas já são capazes de apontar o grande vilão das eleições deste ano no Brasil. Ele não tem nome de gente, não tem rosto e nem mesmo corpo físico. Chama-se, genericamente, de Whatsapp. A rede social mais “pessoal” entre todas as outras tem sido responsável pelo repasse da maior parte das informações manipuladas e divulgação de fake news na campanha. E ainda mais grave: graças ao “zap” – como foi informalmente batizado no Brasil – tem sido possível burlar a legislação eleitoral e permitir o financiamento privado de candidaturas.

O ferrão dos aliados

Cid e Ciro, na campanha do primeiro turno: de temperamento difícil, por onde passam os irmãos Ferreira Gomes costumam deixar algumas arestas (Foto: Reprodução/Internet)

Desde o início, qualquer observador mais atento do cenário político nacional sabia que o desastre poderia ocorrer. Famosos pelo temperamento explosivo e pela verborragia, os irmãos Ferreira Gomes – Ciro e Cid – retomaram o tradicional “protagonismo de escorpião” na campanha do presidenciável Fernando Haddad (PT), que se comprometeram a apoiar. Mesmo cientes da ameaça que uma vitória de Jair Bolsonaro (PSL) pode representar para o futuro político das esquerdas no país, os dois já deram suas colaborações para enfraquecer de alguma forma o palanque do suposto aliado petista.

Segundo turno desfigurado

(Reprodução/Internet)

A campanha do segundo turno da disputa presidencial completou uma semana sem que o eleitor tenha tido qualquer chance de escutar propostas e analisar melhor os planos de governo dos finalistas. Até agora, o que se viu foram ataques de lado a lado, fuga de debates, muitas fake news e uma escalada de violência que tem mantido o eleitor acuado em casa, sem coragem de vestir uma camiseta ou usar um botton, praguinha ou adesivo. Sair às ruas envergando as cores do seu candidato pode significar ser agredido verbalmente, levar uma surra, ser atropelado ou mesmo morto. É o caos social tomando forma.

Simplismo mata

(Reprodução/UOL)

O mais recente texto publicado neste blog despertou uma certa fúria da parte de uma das torcidas organizadas neste segundo turno das eleições. É assim que classifico os grupos mais radicais, que se recusam a dialogar ou, no mínimo, insistem em fechar os olhos ao que de mais grave está acontecendo no país: a ameaça à democracia e às liberdades individuais. Incluída aí a liberdade de expressão. Uma rápida análise da história – e para quem não é afeito aos livros, o Google é uma alternativa – mostrará que a comparação feita no texto anterior é justa. Há verdadeiras milícias em ação nas ruas do Brasil, instigadas por declarações misóginas, homofóbicas, racistas, preconceituosas, que acenam para a violência como solução.

Crime sem castigo

Desenho de uma cruz suástica feita à faca na barriga de uma  jovem, segundo ela, por apoiadores de Bolsonaro: violência remonta a um lado negro da história (Foto: Reprodução/Facebook)

Itália, década de 30 do século passado. O país experimentava o fenômeno do terror político, alimentado por grupos majoritários de poder que legitimavam agressões a quem pensasse diferente. Surgiram as “fascio”, milícias insufladas pelo então líder insurgente Benito Mussolini, e foi criada a Milizia Volontaria per La Sicurezza, encarregada de dissolver – pelos meios que bem entendesse –  as manifestações políticas de oposição. A ela se uniram os Camicie Nere (Camisas Negras), grupos civis de ataque, cujas principais vítimas eram mulheres, jovens, intelectuais, sindicalistas e grevistas, trabalhadores rurais e minorias raciais. Estava montada a estrutura repressiva do regime fascista, um período em que mais de 600 italianos foram assassinados.

Muito partido para pouca ideologia

Cláusula de desempenho começa a vigorar e impõe as primeiras barreiras ao funcionamento dos partidos de aluguel (Foto: Reprodução/Internet)

Dos 35 partidos registrados atualmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 14 não atingiram a nova cláusula de desempenho nas eleições do último domingo, e a partir de 2019 perderão o acesso aos recursos do Fundo Partidário e ao horário eleitoral gratuito de rádio e televisão. É pouco, mas já é um primeiro passo para reduzir o número absurdo de siglas existentes hoje no país, mais um item a confundir a cabeça do eleitor. O dispositivo – incluído na minúscula reforma política aprovada ano passado pelo Congresso Nacional – atinge em cheio os partidos de aluguel que, sem acesso ao dinheiro público, deixam de ser “empresas” lucrativas para os seus donos.

Recadinho do eleitor

Corrupção, mudanças bruscas de lado e distanciamento das bases estimularam eleitor a renovar mais da metade das cadeiras na Câmara Federal (Foto: Arquivo/OD)

Uma das surpresas positivas da eleição deste ano foi o índice de renovação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Antes do pleito, especialistas previam que, apesar do forte descrédito da população na classe política, menos de 30% das cadeiras no Congresso Nacional mudariam de dono. Falou mais alto, porém, a insatisfação do eleitor com seus representantes, e quase 50% deles foram expulsos de cena. Na Câmara, o índice de renovação foi de 53,2% das vagas, o maior em 20 anos. No Senado, a rejeição do eleitorado foi ainda maior: 87% dos 54 candidatos à reeleição não renovaram o mandato.

Hora de corrigir rumos

Haddad terá que fazer ajustes no discurso e andar com as próprias pernas, se quiser dobrar a resistência das elites e do mercado, favoráveis a Bolsonaro (Foto: Reprodução)

A ressaca eleitoral desta segunda-feira, sem dúvida, é maior para quem votou em Jair Bolsonaro (PSL). Afinal, não é todo dia que supostos “salvadores da pátria” são obrigados a enfrentar uma segunda prova de fogo. É inegável que o discurso messiânico e de fácil convencimento funcionou. Os 49,2 milhões de votos obtidos pelo deputado-capitão estão aí para provar que a estratégia estava no caminho certo. Desesperados por alguém que se disponha a mudar o cenário do país, brasileiros de todas as classes sociais – mas sobretudo das elites econômicas – ignoraram a postura proto-fascista, preconceituosa e antidemocrática do presidenciável do PSL e deram a ele um voto de vale-tudo. Para frustração dos mais apressados, porém, ainda havia do outro lado um eleitor mais consciente da necessidade de manter conquistas sociais importantes e preservar direitos humanos e liberdades individuais, colocados sob risco no caso de vitória de Bolsonaro.

Constituição, sereias e cisnes

Sessão do Congresso que promulgou a Constituição Federal em 1988, eliminando resquícios do regime de exceção. Trinta anos depois, a democracia é novamente colocada sob ameaça (Foto: Arquivo/CN)

Com o país ainda engatinhando no processo de redemocratização, após duas décadas de ditadura militar, a promulgação da atual Constituição Federal era comemorada com festa no dia 5 de outubro de 1988. A quase coincidência da data com a eleição deste ano até poderia ser saudada. Afinal, ali se assinalava um marco, um “respiro” após tanto tempo de cidadania sufocada por botas e baionetas. Infelizmente, porém, o quadro que se desenha para o futuro não permite comemorações. O desfecho da disputa eleitoral sinaliza uma ameaça real de retrocesso que pode jogar na lata do lixo trinta anos de uma Constituição que, longe de ser perfeita, ao menos garante alguma liberdade e democracia.