Socialistas em rumo de colisão

No Palácio, Paulo Câmara garantiu a Gleisi Hoffmann apoio a Lula, com ou sem o PSB (Foto: Hélia Scheppa/SEI)

Quem acredita que as últimas conversas entre dirigentes do PT e do PSB sobre uma possível aliança não resultaram em nada, basta ler as entrelinhas para tirar suas conclusões. A principal delas não é nova, remete às eleições de 2014, e reforça a tese de que o desaparecimento do ex-governador Eduardo Campos deixou o PSB completamente órfão de uma liderança que realmente agregue o partido. Prova disso é o tamanho do problema interno a ser levado à convenção nacional que se avizinha. Donos do maior contingente no diretório estadual, os socialistas de Pernambuco estão praticamente isolados na defesa da aliança com o PT, mas dispostos ao confronto com outros diretórios de peso, como São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Distrito Federal, favoráveis ao apoio ao presidenciável do PDT, Ciro Gomes.

Nem atípico, nem inesperado

Atitude de Favreto pode ser eticamente questionável, mas já não se configura em algo inédito (Foto: Divulgação/TRF-4)

Ao pedir a abertura de inquérito contra o desembargador do Tribunal Regional da 4ª Região (TRF-4) Rogério Favreto, no Superior Tribunal de Justiça (STJ), por crime de prevaricação, a procuradora-geral da República Raquel Dodge classificou o episódio em que o magistrado mandou soltar o ex-presidente Lula (PT) como “atípico e inesperado”. Ora, levando em conta o recente comportamento de representantes do Poder, nas suas mais diversas instâncias, a iniciativa de Favreto – embora tenha deflagrado uma batalha interna no Judiciário, no último domingo (08) – poderia ser criticada por vários motivos, menos como algo atípico e inesperado num Judiciário que tem se sobressaído na mídia muito mais pela sua politização que pelas decisões estritamente legais.

Favas contadas

Carlos Siqueira (d) com Gleisi Hoffmann, na sede do PSB: preferência majoritária dos socialistas no país é por aliança com Ciro Gomes (Foto: Divulgação)

A semana começou com o PT voltando à evidência, a partir da fracassada investida que tentou novamente libertar o ex-presidente Lula, e deve terminar com o partido ainda sob os holofotes, mas por uma razão inversa. A ameaça cada vez mais forte de dispersão de aliados – que ronda o palanque petista na disputa presidencial – chegou ao limite do intolerável. Ao ponto de dirigentes partidários abandonarem a cautela e envidarem ações que expõem claramente o temor diante do avanço da pré-candidatura de Ciro Gomes (PDT) sobre o terreno até então considerado preferencial pelo PT. Esse campo envolve algumas legendas menores, como o PCdoB e o PROS, mas o grande prêmio seria o PSB.

Um fantasma resiliente

Por mais que Michel Temer tente exorcizá-la, crise econômica insiste em assombrar seu governo (Foto: Arquivo/FP)

No mesmo dia em que dá posse ao novo ministro do Trabalho – buscando, tardiamente, extinguir uma longa e desastrada dinastia do PTB no comando e nos desmandos da pasta – o presidente Michel Temer (MDB) amarga mais uma notícia negativa para o seu governo, exatamente na área do trabalho, ou melhor, da falta dele. Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revela que poucas vezes, nos últimos 22 anos, os brasileiros estiveram tão assustados com o fantasma do desemprego. De acordo com o levantamento, o Índice de Medo do Desemprego (IMD) de junho cresceu 4,2 pontos em relação a março, e atingiu 67,9 pontos. É o maior placar da série histórica da pesquisa, criada em maio de 1996, e empata com números de maio de 1999 – ano terrível para a gestão de FHC – e de junho de 2016, dois meses depois de Temer ter assumido o poder.

A política de toga

Visto por muitos como o último bastião, Judiciário expõe conflitos internos que agravam a instabilidade institucional (Foto: Reprodução/Internet)

O primeiro domingo após a despedida da seleção brasileira da Copa do Mundo, citado por muitos como o primeiro dia útil do ano em curso, foi marcado por uma situação que seria hilária, se não representasse mais uma demonstração dramática da instabilidade das nossas instituições. As sucessivas ordens de soltura e manutenção da prisão do ex-presidente Lula (PT), protagonizadas por magistrados em um intervalo de poucas horas, voltaram a expor a politização do Judiciário e um cenário de desorganização e de conflito de interesses “interna corporis” bastante preocupante para uma nação à beira do precipício.

A lista de Bolsonaro

Bolsonaro amplia apoio na Câmara dos Deputados, mas aliados preferem não revelar seus nomes (Foto: Arquivo/CD)

O que seria de um país governado por um presidente cujos aliados preferissem não revelar seus nomes nem se expor publicamente? Uma prévia dessa situação surreal já está em curso na Câmara dos Deputados, onde circula secretamente uma lista de parlamentares que garantem estar fechados com a candidatura do colega Jair Bolsonaro (PSL). De acordo com uns poucos privilegiados que asseguram ter tido acesso ao documento, já seriam 110 nomes alinhados com o deputado-capitão, boa parte deles ligada a partidos do Centrão. Mas no rol também constariam alguns representantes de legendas que já lançaram pré-candidatos ao Palácio do Planalto.

Termômetro da polarização

Ao avisar que pretende revisar a reforma trabalhista, Ciro Gomes arrancou vaias do patronato (Foto: Divulgação/CNI)

Ainda é cedo para prognósticos concretos sobre a disputa presidencial. Pesquisas de intenção de voto refletem apenas o momento em que são realizadas, e seus resultados não podem ser tomados como definidores. Mas uma boa medida sobre o cenário que deve se delinear pouco depois das convenções partidárias, com os candidatos já oficializados, foi dada nesta quarta-feira (04) por parte da elite financeira do país. Em um debate promovido pela toda-poderosa Confederação Nacional da Indústria (CNI), alguns concorrentes à sucessão de Michel Temer (MDB) despertaram reações distintas da plateia. As mais significativas foram polarizadas por aplausos para o deputado Jair Bolsonaro (PSL) e vaias para o ex-ministro Ciro Gomes (PDT).

O veneno da política

(Reprodução/Internet)

O país dos interesses é, cada vez mais, o país dos contrastes e contradições. Graças, sobretudo, à classe política, que esta semana deu mais uma mostra de para onde estão direcionados seus interesses. Pouco mais de uma semana após uma comissão especial da Câmara dos Deputados dar seu aval ao projeto que altera a Lei dos Agrotóxicos – agilizando a aprovação de novas substâncias no mercado e limitando a fiscalização do seu uso na lavoura – a mesma casa legislativa se prepara para votar um jabuti ainda mais disforme: a restrição do comércio de produtos orgânicos, ou seja, livres dos mesmos agrotóxicos.

O ruim pode ficar ainda pior

(Reprodução/Internet)

“Votar pra quê, se ninguém presta mesmo?”. “São todos iguais, todos corruptos!”. “É tudo um bando de cabra safado!”. Quem nunca ouviu um desabafo assim, certamente não vive no Brasil. Por culpa dela própria, a classe política hoje desperta sentimentos de rejeição e desesperança que quase sempre são minimizados por quem ainda se dispõe a ir às urnas. Mas os riscos dessa indignação, cada vez mais generalizada, aumentam a cada dia. Os números das duas últimas pesquisas de intenção de voto na corrida presidencial fizeram soar alto as sirenes. Em 10 de junho, o Instituto Datafolha revelou que, por enquanto, 34% dos brasileiros não pretendem escolher nenhum candidato. Vinte dias depois, foi a vez do Ibope reforçar: 33% dos entrevistados admitiram que não planejam digitar qualquer número na urna.

Do inferno ao paraíso. Ou vice-versa

Fachin (c) cercado pelo “Trio do Éden”: Toffoli, Gilmar e Lewandowski. O decano Celso de Mello estava ausente (Foto Orlando Brito/Os Divergentes)

A insistência do ministro Edson Fachin – relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF) – de remeter ao pleno da corte o recurso da defesa do ex-presidente Lula (PT), que pede a suspensão dos efeitos condenatórios, é o melhor termômetro para medir o clima paradisíaco vivido pelos réus que caem na 2ª Turma do STF, batizada de “Jardim do Éden”. Já os que têm a infelicidade de ver seus processos julgados na 1ª Turma, são obrigados a encarar o “Inferno de Dante”. Ali, de fato, é o outro lado do paraíso, onde chovem condenações.